Porém, apenas a expansão e o recorte socio-racial na reserva de vagas não têm sido suficientes para mudar o caráter dessa universidade. Temos mais negras e negros cursando o ensino superior, mais jovens trabalhadores nas salas de aula e temos também diversidade preenchendo as cadeiras universitárias, porém as condições de estudo não são compatíveis com o perfil desses novos atores e atrizes. É cada vez mais difícil se manter na universidade sem ter que disputar tempo de estudo com tempo de trabalho. Há pouco espaço para produzir cultura e conhecimento autônomo no âmbito universitário, a pós-graduação – onde é produzida a maioria da pesquisa na universidade - ainda se caracteriza como um feudo intocável e a extensão é pouco valorizada, por vezes desconhecida pelos estudantes. Assim, podemos dizer que a universidade muda de cara, mas não muda sua feição.
A expansão que vivenciamos tomou forma com a implementação do REUNI e carrega com ela todas as suas contradições. Ao mesmo tempo em que abre as portas para vastos setores da população que antes não imaginavam entrar na universidade, sobretudo nos cursos noturnos, ela acontece numa lógica de “produtividade” que não combina com uma instituição educacional, pois o número de professores e de salas de aulas não aumenta e muito menos do setor técnico-administrativo. Algumas turmas estão sem aula devido à falta de professores, e outras por falta de sala de aula - e o quadro tende a piorar com o cancelamento de novos concursos públicos.
A situação da UFBA à noite é emblemática da incompatibilidade dessa lógica de expansão “produtivista”. No turno em que a maioria dos cursos novos foram criados, não há qualquer serviço funcionando, como o de biblioteca ou de trancamento de matérias; alguns dos novos cursos não tem professores nem salas para colegiado ou para os Centro Acadêmicos; a partir das 20h não há mais qualquer lugar para comer, e os serviços de xerox não obedecem a necessidade dos estudantes, seja em relação ao horário de funcionamento, seja em relação aos preços. Isso sem falar do problema crônico de falta de segurança dentro e fora da universidade à noite.
Não podemos esquecer que a expansão veio juntamente com uma proposta de reestruturação acadêmica, cujo foco estava na nova modalidade de graduação dos Bacharelados Interdisciplinares, os BIs. Os BIs ainda são algo em construção. Muito da sua idéia original (que veio antes do REUNI) já foi modificada, e assim continuará. Até então os BIs têm cumprido um papel importante de inserir os seus estudantes num ambiente de produção e compartilhamento de conhecimento diverso o qual os estudantes de outros cursos de graduação não tem contato.
Mas ao mesmo tempo em que constroem uma educação menos disciplinar, esses estudantes estão constantemente inseridos num clima de competição entre si que não é nada saudável e nem compatível com um clima democrático de produção de conhecimento, isto é, o critério para a passagem dos BIs para o CPL (Curso de Progressão Linear, as nossas graduações tradicionais) é (entre outros quesitos) o escore, pois quem tem melhor histórico de notas, tem a oportunidade de fazer uma nova graduação. Quem não tem uma pontuação tão boa, terá que se conformar com seu Bacharel em Humanidades, Saúde, Artes ou Tecnologia. Como essa reestruturação acadêmica não veio acompanhada de uma política que dê condições do estudante permanecer na universidade, essa competição é quase tão desleal quanto um vestibular, onde as condições econômicas de cada estudante serão, muitas vezes, o fiel da balança na hora de se decidir quem fará os CPLs mais concorridos após os BIs. Além disso, os que passarem para os CPLs, muito provavelmente, encontrarão grades curriculares dos cursos tradicionais incompatíveis com a proposta acadêmica elaborada no BI, o que pode em médio prazo minar o projeto de reestruturação acadêmica.
Toda essa conjuntura exposta chama a atenção para a necessidade e obrigação que temos de acompanhar os novos processos que envolvem a Universidade, analisando-os criticamente e garantindo que eles sejam democráticos e vantajosos.
Texto de Marcelo Leite, estudante de história da UFBa e militante socialista.

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