O Brasil
é um país onde pobreza tem cor e sexo, e onde os direitos estão assegurados a
uma parcela mínima da sociedade. Aqui não queremos tratar das exceções, estamos
tratando justamente das regras. Não queremos saber dos empresários que lucrarão
com a especulação imobiliária. Queremos saber das comunidades que perderam suas
casas, o espaço onde cresceram e firmaram laços. Estamos falando de
Pinheirinho, e do que pode acontecer ao Quilombo Rio dos Macacos e ao Calabar.
Mal
nossas redes sociais anunciavam o massacre em Pinheirinho e já fomos
bombardeados pela notícia de que uma comunidade aqui, bem perto de nós, estava
passando pelo mesmo problema. Uma comunidade quilombola, negra em sua essência
e, infelizmente, empobrecida. Comunidade que se tornou vítima de constantes
ameaças por parte daqueles que deveriam garantir seus direitos de moradia digna
e de segurança.
O
Quilombo Rio dos Macacos é uma comunidade histórica, que fica próxima a Base
Naval de Aratu. Depois de mais de um século vivendo na região, depois de
tanto tempo de resistência ao Estado racista e classista brasileiro, os
moradores estão sendo sufocados e convidados a se retirarem da terra que é sua.
Sua porque seus ancestrais estão presentes ali, porque é dali que muitos tiram
seu sustento, pescando e praticando a agricultura. Só quem é quilombola,
indígena ou quem luta diariamente no MST sabe o valor que a terra tem. Um valor
para além dos bens materiais que nós, moradores dos centros urbanos, não
podemos compreender.
E
o que a UFBA tem a ver com isso?
A
Universidade pública Brasileira é composta (ou deveria ser) pelo tripé: Ensino,
Pesquisa e Extensão. A UFBa tem grande dificuldade de criar uma verdadeira
política de extensão que dialogue com a realidade baiana. Estamos localizados ao
lado da comunidade do Calabar e do Alto das Pombas, e até hoje não conseguimos
estreitar relações com elas. A comunidade do Calabar é criminalizada pelos mais
variados setores da sociedade: pela mídia, pela polícia, pela classe média
alta, que enxerga a comunidade como um problema social. Lamentavelmente, a UFBa
reafirmou os estereótipos que são veiculados, pois definiu como política de
segurança universitária a criação de um muro físico para dividir aquilo que já
está segregado em nosso comportamento social: a “intelectualidade”, o suposto
espaço onde se produz “conhecimento”, daqueles que são considerados marginais.
No
último Consuni (Conselho Universitário), onde se define alguns rumos da
Universidade, foi aprovada a reintegração de posse do Calabar. Enquanto a
sociedade luta contra a utilização do aparato de defesa do Estado, a Marinha,
na opressão aos quilombolas do Rio dos Macacos, a UFBa, que tem aparato
técnico e teórico para propor soluções ao Estado e efetivar uma política
de integração com a comunidade, prefere reforçar uma colocação que detém os
direitos básicos de qualquer cidadão, que é a moradia. Aliado a isso, um prédio
de luxo ocupa um espaço também da UFBa, na Cardeal da Silva, e a única resposta
da Universidade é que tal terreno foi concedido. O mais irônico disso é que a
Universidade divulgou uma nota de apoio ao Quilombo Rio dos Macacos.
E
o que o Centro Acadêmico tem a ver com isso?
O Centro
Acadêmico de História Luiza Mahin tem lado, posicionamento político e
ideológico. Está do lado daqueles que sempre lutaram pela sua historicidade,
pelo reconhecimento e pelos seus direitos. Travamos há muito tempo lutas por
uma efetiva política de extensão. Defendemos que a universidade pública consiga
ultrapassar seus muros físicos e invisíveis e ponha em prática o que na teoria
já é o seu dever como instituição Federal.
No
semestre passado, foi aprovada em Assembléia do Cahis a criação de uma ACC
(Atividade Curricular em Comunidade), que terá como objetivo principal provocar
uma verdadeira extensão e promover a troca de saberes com a comunidade. E após
sermos informados do resultado do último consuni, não podemos nos calar
enquanto estudantes, militantes e cidadãos. O Centro Acadêmico chama a
comunidade acadêmica para barrar a postura covarde da UFBa para com o Calabar.
E
o que você tem a ver com isso?
Você tem
tudo a ver com isso, essa luta é de tod@s nós. Você também é a universidade.
Você também é o centro acadêmico. Você é, antes de tudo, um cidadão. Nós,
estudantes, devemos permanecer atentos e não desgrudar nem por um segundo do
que está acontecendo na comunidade Quilombo Rio dos Macacos, além de nos
mobilizarmos para a situação do Calabar. Vamos nos organizar agora, não
permitindo que essa arbitrariedade aconteça diante de nós. Se ausentar da
discussão é assumir a culpa!
Procure
a Coordenação executiva do CAHIS para pensarmos, juntos, a melhor forma de
atuação. Você está inserido numa sociedade que lhe deu o privilegio de
frequentar a universidade, enquanto a maioria está fora dela, sem acesso e com
as mínimas chances de adentrar nesse espaço. Devemos ter um comprometimento
real para transformar essa situação.
Desde
já, contamos com todas e todos @s estudantes de História.
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